Brasil, país da parada gay: Só em 2005, mais de 70 festas do gênero se espalharam até por conservadoras cidades do interior
   segunda-feira, 24 de abril de 2006
 
Era difícil imaginar tempos atrás que Juazeiro do Norte, cidade beata do sertão cearense, terra de romarias e de Padre Cícero, pudesse assistir um dia a uma parada gay. Já organizou duas. O número de participantes só aumenta. Com o apoio das vizinhas Crato, Várzea Alegre, Iguatu, Icó, Caririaçu e Brejo Santo, o evento de Juazeiro, ainda alvo de forte preconceito da sociedade, reuniu 8 mil pessoas na edição de 2005, segundo os organizadores. As paradas, uma espécie de faceta gay da globalização, são sucesso de público nas principais capitais brasileiras, ferramenta de mobilização em conservadoras cidades do interior e ganham até “calendário oficial” em comunidades e na mídia especializadas.

Se a sua cidade ainda não organizou uma parada gay, tenha certeza de que tudo é uma questão de tempo. Em 2005, várias entraram pela primeira vez na agenda nacional, como a fluminense Cabo Frio, a paulista Santo André e a goiana Ceres. O “calendário” foi fechado em dezembro por outra debutante, a baiana Nazaré das Farinhas, que teve como padrinho o pentacampeão mundial de futebol Vampeta, filho ilustre e mecenas local. Embora não existam números oficiais, o Brasil teve mais de 70 paradas no ano passado, segundo Renato Baldin, coordenador da versão paulistana do evento.

Com estrutura grandiosa ou mambembe, as paradas têm perfil parecido em todo o Brasil. Os participantes cobram respeito aos direitos dos homossexuais, alertam para a necessidade de prevenção de doenças como a Aids e fazem festa, é claro, muita festa. O poder público virou um aliado. Muitas prefeituras dão suporte logístico aos eventos e não faltam políticos, de prefeitos a vereadores, preocupados com a causa e também de olho em um nicho de eleitores que não se pode mais desprezar.

Muito parecidas em sua forma de apresentação, as motivações que levam ONGs e outras entidades a promover uma parada gay nem sempre são iguais. São Paulo, por exemplo, tem atualmente um perfil mais engajado. “No início, a parada era apenas um instrumento de visibilidade de nosso movimento”, lembra Regina Facchini, vice-presidente da Associação da Parada do Orgulho de Gays, Lésbicas, Bissexuais e Transgêneros de São Paulo. “Hoje, já somos conhecidos mundialmente e levamos para as ruas temas que estão sendo discutidos no Congresso.” Assim como no caso das debutantes de hoje, o evento paulistano começou de forma discreta. A primeira edição, em 1997, reuniu 2 mil simpatizantes; na última, em 2005, foram mais de 2 milhões.

Sem medo de discriminação



Nas cidades pequenas, as paradas não buscam apenas chamar a atenção para as causas dos grupos GLBT. São, em geral, movimentos que tentam tirar os homossexuais de uma vida de isolamento. “Ao contrário dos grandes centros, onde há muitas facilidades para os gays, numa cidade do interior eles têm pouca opção de lazer, paquera, cultura e vivem escondidos para não serem recriminados pela sociedade local, muitas vezes homofóbica”, lembra Regina. A parada tornou-se um grande evento social. “Eles saem de casa, se unem a outros seguidores do movimento, buscam mais informações sobre os seus direitos e descobrem novas opções de diversão.” A parada também serve para sensibilizar os heterossexuais da importância de se respeitar a luta GLBT.

Para Regina, o sucesso do evento em uma cidade é inspiração para a organização de outros, em municípios próximos ou não. “Os líderes dos movimentos locais pensam: se o modelo deu certo em um lugar, com o número de participantes crescendo a cada ano, por que não pode ser igual em minha cidade?” Em geral, as paradas espalhadas por todo o Brasil são independentes. Cada uma tem a sua entidade organizadora. Os temas para discussão são variados. Há, porém, um intercâmbio de idéias e apoio logístico para a criação de paradas entre muitos grupos gays. São Paulo, por exemplo, exporta know how para algumas cidades e até chega a emprestar a bandeira de seu movimento, a do arco-íris.

“O importante é que diversos grupos prestigiem as paradas de várias cidades para fortalecer, cada vez mais, os movimentos gays em todo o País”, prega Caio Panighel, presidente da Associação Vida e Esperança, ONG responsável pela organização da Parada GLBT da Baixada Santista. A terceira edição do evento, que seria realizada no último domingo e abriria o calendário nacional, em São Vicente, foi cancelada na última hora por causa da forte chuva que atingiu a cidade. Ganhou uma nova data. O imprevisto, porém, não impediu que milhares de gays e simpatizantes fossem para a Praia de Itararé dançar ao som de um animado trio elétrico e reivindicar apoio ao projeto que legaliza a união civil entre homossexuais.

Segundo Panighel, apesar de São Vicente ser um dos principais redutos gays do Brasil, os homossexuais da cidade precisam viver em guetos, refugiados num canto da praia. “A Parada do Orgulho GLBT em municípios pequenos é uma oportunidade para que os gays ganhem coragem e mostrem a sua cara para a sociedade, sem medo de discriminação”, declara. Essa “ousadia”, contudo, é para poucos, na visão do supervisor acadêmico Manuel Filho, um morador da pacata Botucatu – interior de São Paulo –, simpatizante do movimento que foi prestigiar o evento do litoral paulista.

“Em uma cidade do interior, todo mundo se conhece e as pessoas têm medo de se expor. Imagine se alguém, que não assumiu que é homossexual, é visto numa parada gay por seu chefe, seu vizinho ou por sua família”, lembra Filho. Em São Paulo, o gay está no meio de uma multidão de seguidores da parada, mas no interior é impossível ser um anônimo. Diferentemente do que acontece na capital paulista, onde muitos heteros, inclusive famílias, vão assistir às paradas, nas cidades pequenas a maior parte do público é formada por homossexuais. Para o supervisor acadêmico, há também um maior grau de intolerância por parte de policiais que acompanham os eventos nas cidades pequenas. “Andar de mãos dadas e se beijar em público muitas vezes são atos entendidos como repugnantes e repreendidos pelas autoridades do interior, mesmo numa parada gay.”

Respeito ao futebol

Segundo o psicólogo Oswaldo Rodrigues Júnior, especializado no estudo do comportamento sexual e presidente de uma ONG da área, moradores das grandes cidades tendem a ser mais tolerantes com a diversidade, por concentrarem minorias de todos os tipos, o que não ocorre no interior. “O grande propósito destas paradas é fazer com que o heterossexual perceba que os gays fazem parte da sociedade e se acostume com a idéia de que é necessário conviver em harmonia com eles”, destaca o psicólogo. “As pessoas não vão deixar de ser preconceituosas de uma hora para outra, mas podem aprender a ser mais tolerantes com os gays e a respeitar as diferenças.”

A Botucatu de Manuel Filho ainda não tem a sua parada. E as atividades sociais por lá ainda são muito restritas para os gays. Só é possível encontrar diversão em cidades próximas, como Piracicaba e Bauru, diz. E com muito esforço. “Vencer esse isolamento é uma luta longa e difícil”, declara a drag queen Irene de Castro, que foi “ferver” em São Vicente com os amigos Lugo Martins e Lola, todos artistas da noite GLBT. O trio é freqüentador assíduo de diversas paradas, em capitais e no interior do País. “As cidades menores estão começando a mostrar que podem organizar eventos tão animados como nos grandes centros e devem tornar o Brasil a principal referência no mundo das causas homossexuais”, afirma.

As paradas gays também movimentam a economia. A do Orgulho GLBT de São Paulo – que, neste ano, completa uma década e já é considerada, desde 2004, a maior do mundo - levou cerca de 400 mil turistas à cidade em 2005, muitos estrangeiros, de diversos cantos do mundo, segundo estimativas da organização. Vários hotéis próximos à Avenida Paulista, ponto de partida da parada, estavam cheios. Isso representou uma receita de R$ 240 milhões para a cidade, considerando um gasto médio por pessoa de R$ 600 por três dias na capital. O comércio informal também se beneficia da festa. O que não falta em dia de parada são ambulantes, vendendo de tudo.

Esta globalização gay é entendida pelo psicólogo Oswaldo Rodrigues Júnior como um fortalecimento dos movimentos de defesa dos homossexuais por todo o Brasil: “As ONGs que promovem as paradas estão mais organizadas e não apenas preocupadas em desfilar pelas avenidas. Elas vão ao Ministério Público pedir ajuda no combate às práticas homofóbicas e até conseguem tirar do ar programas de televisão, como aconteceu recentemente com a RedeTV!” No caso das paradas, especificamente, o fenômeno só tende a crescer. “Seja para fazer festa, chamar a atenção das pessoas ou lutar por nossos direitos, estaremos sempre nas ruas, lindas e maravilhosas”, completa a drag Irene de Castro.

O inegável sucesso das paradas não tira, porém, o realismo dos movimentos gays. Tanto que os organizadores já resolveram antecipar para o sábado, 17 de junho, a parada paulistana deste ano. É que, no domingo, Brasil e Austrália estarão jogando pela Copa do Mundo e a Avenida Paulista será dos torcedores. No sábado, os gays esperam bater mais uma vez o recorde de participação e, quem sabe, contar com o reforço do pentacampeão Vampeta.

Da Redação Anderson Couto.
 
 
Fonte: Agência GLBTS
 
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