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Diversidade cultural e arte no contexto educativo

26 fevereiro 2012 6.741 visitas Nenhum Comentário

Luama Socio

1 – Na proposta do projeto Arte Para Todos, a relação entre educador e educando é o centro do processo educativo. O momento do encontro entre as pessoas que participam de uma oficina de dança, teatro, palavras e histórias, pintura em tela, fotografia, capoeira e artes plásticas, deve conter a significação total da intenção do grupo de se compartilhar da companhia de cada um com os outros, de se conhecer novas coisas, se emocionar, se discutir sobre tudo isso e, quem sabe e muito desejavelmente, de realizar uma apresentação pública dos processos artísticos que essas pessoas estão vivendo juntas. Essa concepção repousa inevitavelmente no compromisso de se estabelecer o encontro educativo, pressuposto pelas pessoas que dirigem, nas instituições educativas, o tempo, o lugar e o método educacional.

2 – Assim, o objetivo da relação de educação é primeiramente exposto como algo da responsabilidade e iniciativa dos adultos, sendo seus trabalhos nomeados por representação de funções tais como arte-educador, professor de matemática, agente socio-educativo, agente pedagógico, coordenador, psicólogo, diretor, ajudante geral, trabalho voluntário, mãe, pai, tio, avó, etc., entre outros, entre várias funções, papéis e instituições com menos ou mais, tais e quais responsabilidades no contexto educativo.

3 – Isto não quer dizer que, mesmo que não haja nenhuma intenção educativa bem organizada acontecendo em instituições e métodos, a relação entre educador e educando não aconteça meio que “naturalmente”, no mundo. Todos sabemos que as crianças, os adolescentes e inclusive os adultos aprendem tudo o que sabem com o que está à sua volta. Mas as crianças e adolescentes são apenas crianças e adolescentes, eles não são arte-educador, professor de matemática, agente socio-educativo, etc. Nesse sentido a expressão “diversidade cultural” pode muito bem significar todas as influências externas que colaboram na formação do sujeito.

4 – Através desse prisma o educador, por sua vez, se vê com a responsabilidade de colocar seu aluno no centro do processo educativo, porém juntamente com a necessidade de atentar para toda a multiplicidade e diferenças entre valores, hábitos, críticas e realizações culturais expressos pelas pessoas que compõem os grupos de alunos e todas as outras pessoas envolvidas no contexto do trabalho educativo.

5 – O ponto de vista do educador se defronta com uma miríade de outros pontos de vista. Cada ponto de vista uma expressão da cultura. Qual cultura? O que é cultura?

6 – A diversidade cultural se manifesta aqui nas relações inter-pessoais feitas de tomadas de posições, disputas, opiniões conhecidas ou desconhecidas, costumes, hábitos, gostos e desgostos, práticas, sonhos, críticas, inteligências, sofrimentos, habilidades, intimidades, histórias, capacidades, referências, religiões, construções, escolas, ações, conversas, jogos, trabalhos, artes, espetáculos.

7 – Trata-se da cultura de cada um e de todos. Do saber, do fazer, do sentir, do gostar de cada um e de todos. Dos modos de cada um e dos modos de todos. Modos do corpo, das emoções, dos pensamentos. Dos valores de cada um e dos valores de todos. Dos pontos de contato e das diferenças entre os membros da cultura. Relação. Relatividade. Tolerância. Compreensão. Afeto. Crítica. Vivência. Convivência.

8 – Trata-se também de que: uma questão pressuposta é que a arte seja tomada como uma expressão verdadeira da cultura, incluindo aí a sua diversidade, no desdobramento dos direitos humanos institucionalizado. A arte, que é o resultado estético de uma técnica a partir do fazer, sentir, se emocionar e pensar, portadora de compartilhamento cultural, singularidade, expressão, crítica e símbolo da cultura. E assim como tem direito a alimentação e saúde, o adolescente também tem direito à cultura.

9 – O conceito de diversidade cultural é uma observação norteadora da interpretação dos conteúdos de documentos oficiais do Estado que dirigem os planos de trabalho das instituições, tais como ECA e Sinase. Dele pode-se depreender o compromisso que as instituições devem realizar no sentido de proteger o respeito à diversidade cultural expressa por membros dos grupos de trabalho e especificamente levar em conta e respeitar a diversidade cultural expressa pelos alunos.

10 – A diversidade cultural é assinalada como elemento-valor constituinte da própria estrutura do Sistema de Atendimento Socioeducativo no capítulo “Respeito aos direitos humanos” nos Princípios e Marco Legal: “Liberdade, solidariedade, justiça social, honestidade, paz, responsabilidade e respeito à diversidade cultural, religiosa, étnico-racial, de gênero e orientação sexual, são os valores norteadores da construção coletiva dos direitos e responsabilidades. (…) No caso dos adolescentes sob medida socio-educativa é necessário, igualmente, que todos esses valores sejam conhecidos e vivenciados durante o atendimento socioeducativo, superando-se práticas ainda corriqueiras que resumem o adolescente ao ato a ele atribuído”.

11 – Assim, o conceito de diversidade cultural é uma espécie de ponto de partida para ações específicas e concretas a serem realizadas pelos educadores envolvidos no Sistema.

12 – Do ponto de vista do educando, a diversidade cultural é vivenciada quando ele tem acesso às variedades possíveis de formas educativas através da arte, disponibilizadas pelas instituições ou por pessoas, grupos e comunidades em contato com a instituição educativa.

13 – Do ponto de vista do educador, a diversidade cultural é vivenciada através das diferenças de valores, hábitos, costumes, práticas, etc., com as quais se depara assim que passa a fazer parte do contexto educativo. Mas o que importa aqui é que o educador, a partir do momento em que se defronta com a realidade educativa, perceba que ele próprio é portador de uma diversidade cultural que deve ser compartilhada.

14 – Nesse sentido, o conceito de diversidade cultural dialoga com todos os conteúdos, técnicas e valores veiculados pelas oficinas de arte-cultura. E o desafio para o educador é: através das diferenças inerentes à diversidade cultural, promover o encontro educativo.

15 – Este encontro educativo pelas vias da diversidade cultural exige constante pesquisa, criatividade, esforço de compreensão, auto-avaliação, ousadia e engajamento dos educadores envolvidos no processo de preparar e ministrar aulas nas oficinas de arte-cultura dentro do convívio dos Centros de Atendimento Socio-Educativo.

16 – Admitir a diversidade cultural como ponto de partida para as ações educativas é lidar com diferenças e, portanto, é provocar e sentir estranhamentos, dúvidas e conflitos, inevitavelmente.

17 – Por outro lado, atentar para a diversidade cultural é o mesmo que descobrir a fonte da criatividade. É assim que foi possível ao educador Danilo orientar seus alunos na elaboração de uma coreografia da moderna Dança de Rua misturando-a com a tradicional Catira. Isso aconteceu porque os alunos foram ouvidos pelo educador. Foram eles que, a partir de suas próprias histórias de vida se lembraram da Catira e a sugeriram como elemento de Dança.

18 – Outro aspecto importante que justifica o direito à diversidade cultural é que nesse conceito estão também implícitos, tanto a valorização da cultura percebida num momento dado, como também o direito à informação e transformação oriundas do espectro mais amplo da diversidade cultural em seu devir.

19 – É por essa via que educadores como Fernanda e Washington, por exemplo, trabalharam textos do teatro do absurdo e de Guimarães Rosa (Os irmãos Dagobé). Essas iniciativas geraram boa dose de conflitos, mas todos os envolvidos são unânimes em avaliar que valeu a pena vivenciar esses conflitos, porque eles viabilizaram um canal de compreensão mais amplo entre as pessoas envolvidas na diversidade. Também foi assim que os educadores Iéio e Fernanda decidiram trabalhar técnicas mistas em pinturas abstratas com turmas de Artes Plásticas. Essas também foram autênticas ousadias num contexto cultural que valorizava, até então, predominantemente, apenas a pintura e o desenho figurativos.

20 – Além dos exemplos acima, há inúmeras outras iniciativas e maneiras, através das quais os arte-educadores do projeto Arte Para Todos entram cotidianamente em contato com a realidade da diversidade cultural e com a necessidade de atentar a ela a todo o momento.

21 – No entanto, é preciso admitir que é difícil estabelecer uma conclusão a respeito do significado exato do conceito de diversidade cultural no contexto educativo.

22 – Quando o conceito de diversidade cultural traduz a idéia de que a arte seja uma expressão apropriada e verdadeira da cultura, é porque o trabalho artístico é visto, de início, como algo que faz parte, legitimamente, dessa cultura. Mas no limite do trabalho do arte-educador está o confronto com uma realidade que ao mesmo tempo valoriza e desvaloriza essa arte. Uma arte que, ao mesmo tempo que parece fazer parte da cultura, parece também persistir à distância de suas práticas mais comuns. Porém, talvez essa diferença, justamente entre a arte e os outros modos e fazeres, expresse com melhor adequação a necessidade de se respeitar tudo o que possa adquirir significado sob o conceito de diversidade cultural.

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